quinta-feira, 26 de maio de 2011

Metodologia e linguagem de trabalhos académicos
(2)De energia dispersiva ou dispersivo de energia?

Há vários métodos de análise com designações em inglês de que consta a indicação “energy dispersive” como, por exemplo, “energy dispersive X-ray spectroscopy” ou “energy dispersive X-ray fluorescence spectrometry”.

Com muita frequência “energy dispersive” surge em português como “energia dispersiva”, tal como em “espectroscopia de raios X de energia dispersiva” ou “espectrometria de fluorescência de raios X de energia dispersiva”.

Porém, a construção frásica em inglês e português é diferente e, por outro lado, do ponto de vista físico “energia dispersiva” não tem qualquer sentido. É que, como se pode ver num simples dicionário de português, dispersivo é um adjectivo que significa “que produz dispersão” e neste contexto a energia referida não é usada para provocar coisa nenhuma, sendo pelo contrário aquilo que é estudado.

O que acontece é que num método como os referidos, a radiação emitida pelo material analisado é separada ou decomposta segundo a sua energia, sendo determinada depois a intensidade dessa radiação em função da energia. Ou seja, a radiação é dispersa de acordo com a sua energia. Esta informação é importante porque não tem que ser assim, já que alguns equipamentos analisam a radiação em função do seu comprimento de onda, isto é, são dispersivos de comprimento de onda, e os resultados obtidos desse modo, além de envolverem tempos de aquisição diferentes, proporcionam informação algo diferente, tornando-os mais adequados a algumas situações e menos adequados a outras.

Vendo-se um espectro, o documento que regista os resultados da análise efectuada por qualquer um desses métodos, sabe-se imediatamente qual o tipo de equipamento usado, conforme no eixo horizontal está representada a energia ou está representado um ângulo.

Ou seja, o que inglês é “energy dispersive” é em português “dispersivo de energia” ou “dispersiva de energia”, conforme a designação a que se aplicar, e, portanto, os dois métodos no início referidos como exemplos são correctamente designados em português como “espectroscopia de raios X dispersiva de energia” e “espectrometria de fluorescência de raios X dispersiva de energia”, respectivamente.

Comentários:

Inês Cardoso :

Antes de mais, agradeço muito o seu esclarecimento.
E relativamente às siglas?
SEM-EDS - scanning electron microscopy - energy dispersive x ray spectroscopy, e em português MEV-EDE - microscopia electronica de varrimento - espectroscopia de raios x dispersiva de energia.
Estão correctas?
Obrigada,
Inês Cardoso

Comentário de j.delgado rodrigues :

Não seria mais correto dizer "... por dispersão de energia"?

Comentário de António João Cruz :

Em termos físicos, salvo melhor opinião, julgo que estão as duas expressões igualmente correctas. Em termos gramaticais, sinceramente não me posso pronunciar.
Numa época tão marcada pela terminologia inglesa e pela simplificação linguística, parece-me que a expressão dispersiva de energia, por ser mais semelhante à expressão inglesa e ter menor número de palavras, mais facilmente terá o seu uso expandido.

Comentário de Isabel Belchior :

Senhor Professor Doutor António João da Cruz,

Os meus parabéns pelo seu blogue, extremamente útil e informativo, mesmo para quem não é da área das ciências da Conservação.

Se me permite, venho colocar-lhe uma dúvida: tenho em mãos a finalização de uma tradução de uma palestra de Maurizio Seracini, na TED Talks, sobre os frescos perdidos de Leonardo da Vinci. A certa altura, ele refere-se aos exames a que submeteu os fragmentos que encontrou - XRF, Difração de Raios X, etc. A sigla XRF refere-se à palavras inglesas.
No meio científico português só há referência à Fluorescência de Raios X, usando a sigla inglesa ou há uma sigla em português, reconhecida por todos?

Com os melhores cumprimentos,

Isabel Vaz Belchior

Comentário de António João Cruz :

Em português é comum o uso da sigla FRX. Esse uso, no entanto, deverá ser limitado a textos em que todas as outras siglas de métodos estão também em português. Se isso não for possível, acho que, por uma questão de coerência, é preferível usá-las todas em inglês.